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Invisíveis: a luta das mulheres do campo por reconhecimento

Na agricultura familiar, preconceito velado é a raiz da desigualdade de gênero 


As mulheres do campo se dedicam ao trabalho na lavoura, verificam se a água está adequada para o consumo, mantém hortas em volta das casas e preparam os alimentos. Somado a isso, cuidam dos filhos, dos idosos e doentes, além de serem as responsáveis pelas tarefas domésticas. Cultivando a saúde da família com amor, elas também são as primeiras a optarem pela produção agroecológica, caracterizada pelo não uso de agrotóxicos, pois se preocupam em colocar na mesa alimentos saudáveis, que nutrem o corpo e a alma.

Apesar do papel fundamental que as mulheres desempenham desde os primórdios da agricultura, estas estão inseridas em uma sociedade machista e patriarcal, na qual seu trabalho ocupa posição inferiorizada. É o homem que toma as decisões e possui os bens da família na palma da mão. Não bastasse isso, muitas vezes, ainda acredita que a esposa e as filhas também são posses suas. Elas tentam contar ao mundo a importância do papel que desempenham, mas suas vozes são caladas por preconceitos velados e estereótipos.

Para lutar contra esta realidade desigual, no final de 2017, constituiu-se, no Vale do Rio Pardo, a Articulação Mulheres e Agroecologia (AMA), um grupo de agricultoras criado com o apoio do Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (CAPA). Aos poucos, o grupo passou a contar ainda com a participação de mulheres ligadas a entidades parceiras do CAPA e da Cooperativa Regional de Agricultores Familiares Ecologistas (ECOVALE), como a Escola Família Agrícola de Santa Cruz do Sul (EFASC) e a Escola Família Agrícola de Vale
do Sol (EFASOL).

Conforme Melissa Lenz, integrante da AMA e coordenadora do núcleo de Santa Cruz do Sul do CAPA, o objetivo da articulação é dar visibilidade ao trabalho das mulheres do campo. Por meio de reuniões, oficinas sobre saúde e alimentação e debates à respeito das diversas formas de violência sofridas pelo público feminino, elas lutam por igualdade, respeito, dignidade, justiça e equidade salarial, buscando combater todos os tipos de agressão. “Queremos estar onde desejamos estar e não onde a sociedade nos coloca”, enfatiza Melissa.

Uma forma de resistência

Bruna Richter Eichler, 22, moradora de Venâncio Aires, é egressa e monitora da EFASC, acadêmica do Bacharelado em Agroecologia da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS) e cantadora popular. Rosana Rocha, 29, de Cachoeira do Sul, foi monitora da EFASOL e, hoje, é pós-graduanda em Agroecologia e Produção Orgânica da UERGS. Ambas são agricultoras familiares e integram a AMA, onde defendem as causas agroecológica e feminista.

Para Bruna, a AMA é uma possibilidade de enxergar outras mulheres. “Conheço muitos grupos feministas que acabam excluindo as mulheres do campo”, pontua a venâncio-airense. Na sociedade patriarcal, o machismo está enraizado de tal maneira a ponto de ser reproduzido pelas próprias mulheres, sem que se deem conta disso. Assim, uma das maiores dificuldades da AMA é fazer com que as agricultoras familiares associadas à Ecovale percebam a articulação como uma possibilidade de conversar sobre assuntos que perpassam suas vidas e de criar uma rede de fortalecimento dentro da agroecologia.

Com a pandemia, os encontros passaram a ser virtuais e se tornou ainda mais difícil atrair as mulheres para as reuniões. “A gente tem muita dificuldade de conseguir fazer com que as produtoras agroecologistas falem e lutem. Elas estão tão ocupadas com as demandas que, por vezes, acham que o trabalho é só da porteira para dentro”, relata Rosana.

As integrantes da AMA, porém, continuam resistindo e semeando a igualdade de gênero na sociedade. “A gente só vai ter agroecologia efetiva no momento em que as mulheres tiverem a compreensão da igualdade que se busca dentro do feminismo, da sua valorização, do quão importante é seu ser na produção de alimentos e na educação dos filhos, assim como na reprodução da vida”, explica a cachoeirense.

Impactos da pandemia

Muitas mulheres moram distantes umas das outras, não possuem Carteira Nacional de Habilitação (CNH) para se deslocar e tampouco têm liberdade financeira para buscar alternativas. Seus maridos tentam, a todo custo, decidir o destino das esposas - seja ele um lugar ou seu futuro. Nesse contexto, a pandemia de Covid-19 isolou, ainda mais, as agricultoras. E não foi somente pela necessidade de manter o distanciamento para evitar a propagação do coronavírus.

Confinadas nas propriedades, além do trabalho na lavoura, do trabalho doméstico e do cuidado com os filhos, a pandemia fez com que tivessem que desempenhar, de forma improvisada, outro papel em virtude da suspensão das aulas presenciais: o de “professoras” dos filhos. Em casa, Bruna percebeu o cansaço da mãe ao cumprir essa difícil missão. “Não é só cuidar, mas conseguir ajudar a estudar e realmente aprender. Às vezes, minha mãe estava trabalhando o dia inteiro e lá pelas 23h ela chamava minha irmã para estudar. Ia até meia noite assim”, relata a jovem.

Isoladas do mundo e confinadas com seu agressor, uma parcela de mulheres do campo e da cidade carrega pesos ainda maiores. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, cerca de 736 milhões de adolescentes e mulheres com 15 anos ou mais sofreram algum tipo de agressão, principalmente por parte de seus parceiros. São realidades como essa que a AMA busca transformar. “Precisamos nos fortalecer enquanto AMA e articular mais mulher para se tornarem protagonistas de sua história na agroecologia”, enfatiza Melissa.